O senhor já combinou com os Russos?

Há algo de profundamente reconfortante na ideia de que o mundo funciona como a soma de aparelhos domésticos, todos devidamente acompanhados por um manual de instruções. Quando compramos um micro-ondas, assumimos que apertar o botão de três minutos nos entregará solenemente a refeição aquecida, sem surpresas existenciais, sem mistério; a física do aparelho é estável, os circuitos são obedientes e a realidade responde exatamente ao programado. De fato, toda a neurose deste nosso sujeito contemporâneo, que é uma mistura de materialismo ingênuo, gnosticismo esotérico, positivismo burocrático de alta performance e voluntarismo de aplicativo, repousa na premissa fantasiosa de que a realidade é consistente, e previsível, é dizer, que está disposta a honrar acordos prévios.
Começamos a perceber o problema quando tentamos aplicar essa mesma lógica cibernética às dinâmicas da existência. Construímos cronogramas e estratégias de vida sob a ingênua convicção de que o destino não é mais do que um algoritmo passivo à espera do nosso comando.
A sabedoria popular brasileira preserva uma das lições mais corrosivas contra a vulgaridade prepotente dos sistemas fechados, imortalizada por Garrincha, na Copa de 1958. Diante do quadro-negro com a tática milimetricamente calculada por Vicente Feola, o ponta-direita fulmina seco: “Mas o senhor já combinou com os russos?”. A tirada expõe no ato a barra; a presença ineliminável do atrito, a alteridade do adversário, a entropia, o confronto inevitável com o falta no Outro, enfim, a falha estrutural que habita o centro de qualquer cálculo.
Esse engodo tático utópico e sem russos é a própria matriz do discurso do coach. Supõe a existência ou bem de um código sem falhas ou bem de um garantidor supremo, que asseguram o êxito caso o protocolo seja seguido com devoção necessária. Desenham-se biografias impecáveis e projetos de felicidade parametrizada para, em seguida, ao vivenciar qualquer contingência do real, seja a doença, o desemprego, o desencontro ou a falha do plano, entender como um fracasso moral e estritamente individual. Reconhecer a fenda no Outro exige abandonar a exigência infantil de que a vida se dobre ao quadro negro dos nossos desejos. O "russo", enquanto metáfora da barra, é dizer, de tudo o que nos escapa e desorganiza, é a própria condição para que o jogo permaneça aberto. É justamente no espaço deixado pela impossibilidade de combinar o resultado que o drible, a criatividade humana e a autêntica liberdade do sujeito encontram terreno para emergir.