Sabor Lacan

16 de outubro de 2026

Sabor Lacan

Sabor Lacan

Em 2026 estamos assim: abro meu iogurte de mel enquanto vejo uma bela imagem na rede social dizendo “amar é dar o que não se tem a alguém que não quer”, com a assinatura de Jacques Lacan. Detalhe: meu iogurte não contém uma única gota de mel e Lacan nunca escreveu essa frase.

Bem-vindos à era dos ultraprocessados. Na prateleira do supermercado ou no feed das redes, a lógica é rigorosamente a mesma: a substituição do ingrediente bruto por um aromatizante sintético que simula o gosto. No campo da psicanálise, batizamos esse fenômeno de “Sabor Lacan”.

Trata-se de uma mercadoria de consumo rápido, composta basicamente por aforismos descontextualizados, citações de orelha de livro, empirismo clínico freestyle e aditivos apócrifos, projetada para satisfazer a pressa do consumo sem exigir o trabalho da leitura. O problema, contudo, vai muito além da questão estética.

Quando se vende o aroma do conceito no lugar de sua substância, acabamos por neutralizar exatamente aquilo que fazia corte no texto lacaniano, derivando do núcleo duro de teorias que vão, com o tempo, sendo fagocitadas pelo senso comum.

A tão célebre fórmula do amor de Lacan é um exemplo perfeito dessa fraude. No Seminário 8: A Transferência (18 de janeiro de 1961), enuncia: “ l'amour c'est donner ce qu'on n'a pas” (“o amor é dar o que não se tem”). Na feira livre do Sabor Lacan, a frase ganha o enxerto apócrifo “a alguém que não quer”.

Basta abrir o arquivo Staferla para constatar que a adição simplesmente não existe na lição de 1961. No recorrer ao texto não manipulado, o aditivo se dissolve e revela a verdadeira liga do conceito: a articulação a Penia (a Pobreza) em Platão e à formulação grega ἄνευ τοῦ ἔχειν λόγον δοῦναι (dar um discurso sem possuir a propriedade privada do saber). O ingrediente original envolve falta, discurso, amor e a estrutura do saber — uma topologia bem distante do aforismo “saborizado” que circula de mão em mão.

Na era do consumo rápido e da superficialidade espetacularizada das relações, o recurso às fontes independentes, o texto de trabalho, sem maquiagem, tem sido cada vez mais visto como um fetiche filológico de colecionador. Estamos aqui para sustentar que não apenas essa é a última salvaguarda contra a mímica teórica, como a única garantia de que ainda nos resta algo do conceito quando a fumaça do aromatizante finalmente se dissipar.

O sabor Mel, o sabor Lacan, esse fenômeno alienante é a tentativa de suturar o insuportável: a fantasia de um Outro não barrado, plenamente consistente e capaz de oferecer um saber docinho, aqui e agora. A indústria do ultraprocessado teórico nada mais faz do que vender a ilusão de um produto sem atrito; uma psicanálise higienizada, que recusa a angústia para que o sujeito seja poupado da castração.

Esse docinho entrega calorias vazias: o pico rápido de dopamina de uma frase de efeito, que dá a sensação momentânea de saber, mas deixa o sujeito conceitualmente desnutrido. De qualquer forma, é preciso reconhecer que a indigestão mental exige um estômago muito mais forte do que a confortável ignorância de um iogurte de mentira.