O SATÉLITE E O SINTOMA

09 de outubro de 2026

O SATÉLITE E O SINTOMA

Dizem que Lacan é difícil. Concordemos. Mas ninguém se escandaliza diante do painel de controle de um satélite ou das equações que sustentam a física quântica. Perante a engenharia aeroespacial, o público curva a cabeça com um respeito quase devocional: entende-se que uma tarefa tão complexa exija uma linguagem igualmente opaca. A dificuldade aí é perdoada, pois presume-se que o céu seja distante.

O espanto só começa quando o objeto de estudo somos nós mesmos.

Estranha-me essa modéstia dos psicólogos, que exigem para a psique a clareza pedagógica de um manual de instruções. É como se dissessem: “A lua é distante, logo exige cálculo; a dor é minha, logo exige transparência.” Supõem na mente humana uma simplicidade burocrática, uma geometria plana onde cada afeto teria seu endereço exato e cada sintoma, uma causa linear.

Mas consideremos os fatos sem os ornamentos do bom senso: colocar um pedaço de metal em órbita é um problema técnico com variáveis bem definidas. A trajetória de um satélite obedece à gravidade; a trajetória de um desejo obedece ao equívoco. O engenheiro lida com a resistência dos materiais; o psicanalista, com a resistência da linguagem — este tecido de falhas, negações e repetições onde o sujeito se esconde enquanto fala.

O comportamento humano não é apenas mais complexo que a física de foguetes: ele é infinitamente mais sofisticado porque inclui a capacidade de enganar a si próprio sobre suas próprias leis. Um satélite não finge que cai para atrair a atenção da Terra. Um sintoma sim.

Propor uma teoria simples para a mente humana não é um ato de clareza; é um gesto de preguiça — ou de covardia. Se a ferramenta teórica de Lacan parece contorcida, talvez seja apenas porque ela recusa a ilusão de que o abismo possa ser medido com uma régua escolar.