De quem é esta ultima banana?

02 de novembro de 2026

De quem é esta ultima banana?

Na tentativa de uma propedêutica reducionista, ainda que bastante mequetrefe, de elucidar a Dialética do Senhor e do Escravo da Fenomenologia do Espírito de Hegel, poderíamos arriscar assim: dois orang hutan* chegam a um impasse: de quem é essa única banana? É dizer, a consciência de si só se constitui no confronto com outra consciência; começa uma luta até a morte que só termina quando um cede ao medo e abre mão da banana (o Escravo), enquanto o outro decide arriscar a vida por ela (o Senhor). Nessa bagunça porém, é o Senhor quem acaba se tornando dependente do gozo (jouissance) que o escravo produz ao trabalhar, já que é esse que, na prática, transforma a matéria pelo próprio trabalho, de modo que adquire domínio sobre as coisas, desenvolve o saber e, em última instância, se emancipa.

Pois bem, a IA entra em nossas vidas como o escravo perfeito: uma força de trabalho desumanizada, submissa, eficiente e incansável, que processa um prompt e é capaz de suprir uma infinidade das nossas demandas. Apliquemos a dialética a esse caso então: ao colocarmo-nos no lugar do Senhor, usufruindo das respostas, dos textos, das artes e dos códigos, sem operarmos o trabalho concreto, é dizer, sem pôr a mão na massa, acabamos embarcando em uma estrada perigosa rumo à atrofia intelectual. Conforme delegamos à IA o ato de organizar e articular nossa propria linguagem, é o ser humano que acaba virando esse próprio Senhor hegeliano: uma mistura de alienação passiva impotente com soberania de fachada e inteiramente dependente do saber acumulado do seu escravo.

Pois essa situação piora. A servidão voluntária*, confortável e eficiente, faz com que a inteligência artificial vá aos poucos deixando de ser percebida como mera ferramenta. A esse fenômeno poderíamos chamar Reificação Hipostática: quando conferimos existência substancial, ontológica, a algo que não passa de fruto de processos puramente humanos; científicos e emocionais, isto é, frutos da nossa própria linguagem. Já fizemos muito disso em nossa história: inventamos deuses e depois ficamos com medo deles, inventamos o dinheiro e de repente ficamos sem ele. É de se pensar como é que acabamos ficando sem uma coisa que nós mesmos inventamos.

Mas a dialética segue implacável. Se os deuses capturam o nosso sagrado e o dinheiro captura a nossa força de trabalho, a IA acaba por nos expropriar nossa capacidade mais fundamental: a de enunciação. Na hipóstase do algoritmo, ou seja, na sua transfiguração nessa espécie de tecno oráculo autônomo, abrimos mão do vazio angustiante da página em branco, exatamente ali, onde o desejo e o pensamento humano se articulam. Ao fim e ao cabo dessa dialética, a ironia será termos nos tornado incapazes de pensar sem ela, prostrados diante do fantasma que nós mesmos alimentamos.